sábado, 20 de outubro de 2012

COMPREENSÃO

Houve um dia
Em que eu quis compreender
O tamanho da poesia
Sua fenomenologia...
Saí pela vida
Em busca das vidas
Dos que com ela estiveram...
Aproximei-me de Flor Bela de Alma
Assim batizada
A Florbela Espanca
Senti sua inquietação
Sua alma sonhadora
Sua rápida passagem pela vida...
Exilei-me junto à Neruda
Ouvi da sua voz
A beleza dos seus versos
Seu transpirar romântico
Seu desejo por liberdade...
Contemplei o impalpável amor
De Luís de Camões
Seu desatino
Sua transcendência
Sua contradição...
Instalei-me no pequeno quarto
De Mário Quintana
Emocionei-me com sua solidão
Seu silêncio
Sua genialidade
Sua eternidade poética...
Busquei compreender a poesia
Dissecando poetas
E no meu retorno para casa
Deparei-me com um mendigo
Sentado à beira da calçada
Maltrapilho,
Ferida na perna
Trapos no chão
Flores nas mãos
Cantarolava
E insistia em plantá-las
Em meio ao cimento...
O tempo parou em mim
Senti o “grave frio do medo”
E precisei dele
Guimarães Rosa
Profundo conhecedor da alma humana
E com ele
Escrevi
E assim como ele
“repeti o que já vivi”
E desejei
Estar no mar
À beira da praia
Sol quente
Aquecendo a superfície do meu eu
Na minha profundeza
A ausência da compreensão
Insistia em permanecer...
Ana Gomes

Nenhum comentário:

Postar um comentário